Gírias e o seu uso em provas de concurso

Por:

Luana Porto

Como elemento que mostra o quanto o processo de transformação da língua é vivo e natural, a gíria está presente em formas de comunicação, especialmente as orais, em contextos variados, contudo não é adequada para todas as situações falas e tampouco para certos gêneros textuais escritos.

Também denominada de calão, a gíria é uma forma de variação linguística que associada à fala informal, sendo, portanto, adequada para contextos informais de interação, como uma roda de conversas entre amigos ou uma bate-papo nas redes sociais com pessoas familiares. Ou seja, sua recorrência não incide em inadequação de linguagem apenas em contextos informais, nos quais são admitidas certas flexibilizações quanto ao uso da língua.

As gírias são também variadas em função de fatores como o tempo e o espaço. Há gírias que deixam de ser usadas, havendo sua substituição por outras. Cada geração, por exemplo, tem suas próprias gírias, que muitas vezes trazem termos amplamente conhecidos, como marcas ou referências a personagens e lugares, e que são pequenas variações de expressões em línguas estrangeiras. No quadro abaixo, indicamos alguns exemplos de gírias antigas e atuais:

Gírias antigasGírias atuais
Boa pinta: pessoa de boa aparênciaDar biscoito: fazer de tudo para chamar a atenção
Bulhufas: absolutamente nada10/10: pessoa muito bonita
Chato de galocha: pessoa muito irritanteTá na Disney: está enganado  
Grilado: preocupadoMaria Mucilon: referência a mulheres que gostam de rapazes ou meninas mais novos
Pindaíba: sem dinheiroPartiu: vamos lá
Transado: com visual bonito, modernoDeu ruim: algo está dando errado
Ideia de jerico: ideia sem sentidoShippar:  desejar a união de duas ou mais pessoas.

Em relação ao espaço geográfico, as gírias também sofrem variações. Cada região brasileira tem suas próprias gírias. No quadro abaixo, selecionamos duas regiões para exemplificar a variedade de gírias: o norte, precisamente gírias típicas de Roraima, e o sul, especificamente com expressões do Rio Grande do Sul.

Norte: Estado de RoraimaSul: Estado do Rio Grande do Sul
Brocado: com fomeAbagualado: grosseiro, rude, inculto, rústico, abrutalhado, viril.  
Morgado: cansado, exausto, esgotadoAtucanado: preocupado
Ciscado: desconfiado.Balaqueiro: conversa-mole, papo-furado, gesto, atitude exibicionista, firula
Theca: nojo ou reprovação de algo.Capaz: imagina

Nas provas de concurso, as gírias podem ser abordadas?

Para compreender melhor esse contexto das gírias em provas de concurso, é necessário reconhecer que as gírias estão associadas aos tópicos de: modalidade culta e coloquial da língua e de variações linguísticas, o que inclui a identificação do fenômeno, bem como seu contexto de uso. Em outros termos: é um conteúdo que aparece com frequência do programa de provas de língua portuguesa, estimulando seu estudo e compreensão.

Além disso, destacamos inicialmente já dois avisos importantes para concurseiros. Primeiro: reconhecer o que são gírias, seu contexto de uso e exemplos é importante porque é um dos tópicos que pode aparecer em textos que motivam os enunciados de questões. Dessa forma, o estudo de gírias não deve ser excluído dos tópicos de quem fará uma prova de concurso. O exemplo a seguir mostra uma das formas de abordagem das gírias em que é preciso reconhecer esse fenômeno linguístico:

CONSULPLAN – 2018 – Câmara de Belo Horizonte – MG – Redator A gíria é a marca característica da linguagem de um grupo social.      

[…]      

Sendo um instrumento de agressividade no léxico, como se verá, a gíria está mais ligada à linguagem dos grupos socialmente menos favorecidos ou de oposição a um contexto social.      

[…]      

A língua é apenas uma entre outras formas de comportamento, um entre outros modos de realização das atividades culturais praticadas pelo grupo. Como essas formas de comportamento, a língua também varia no interior de uma sociedade, de tal maneira que os indivíduos que possuem entre si laços mais estreitos de convívio, relações de maior e mais durável intimidade, apresentam, precisamente por isso, modos de falar muito semelhantes (ou quase idênticos) que os distinguem de outros indivíduos. Quando esses comportamentos, essas marcas contribuem para a formação de uma consciência de grupo; quando os indivíduos fazem dessas marcas grupais uma forma de se auto afirmarem na sociedade, dizemos que essas marcas constituem signos de grupo. Ex.: a moda característica de grupos; a apresentação pessoal (cabelos etc.); o vocabulário gírio com que se comunicam.      

No caso específico da língua ou, mais precisamente, do léxico, damos o nome de gíria de grupo ao vocabulário de grupos sociais restritos, cujo comportamento se afasta da maioria, seja pelo inusitado, seja pelo conflito que estabelecem com a sociedade. Inusitados são, por exemplo, os grupos jovens ligados à música, às diversões, aos esportes, aos pontos de encontro nos shoppings, à universidade; conflituosos, violentos são os grupos comprometidos com as drogas e o tráfico, com a prostituição, com o roubo e o crime, com o contrabando, com o ambiente das prisões etc.      

[…]      

Hoje, com a grande divulgação da informação, com a presença social atuante da mídia, a gíria se vulgariza muito rapidamente, assim como rapidamente se extingue e é substituída por novas formas. Essa efemeridade é uma das características mais presentes no vocabulário gírio e, de certa maneira, identifica-o com a grande mobilidade de costumes da época contemporânea. E, talvez por essa constante dinâmica é que a gíria tornou-se tão utilizada em nossos tempos.

[…]

  (PRETI, Dino. Revista Língua Portuguesa, São Paulo, 27 fev. 2009.)

De acordo com as ideias expressas no texto:

a) Há uma restrição social que caracteriza grupos que utilizam gírias de modo constante.

b) O emprego da gíria provoca o pleno afastamento de qualquer grupo do restante da sociedade na qual está inserido.

c) Todo grupo que utiliza gírias como forma de comunicação pode ser identificado pelo conflito estabelecido por ele mesmo.

d) A restrição de vocabulário é um mito facilmente refutado pelo comportamento do grupo que utiliza o emprego de gírias em seu cotidiano.  

Gabarito: A

Segundo aviso importante: nas questões discursivas das provas de concurso, o uso de gírias deve ser rigorosamente evitado. Por quê? As provas de redação requerem que os candidatos evidenciem o uso da modalidade culta da língua no registo escrito, o que se contrapõe ao uso de gírias, já que elas são usos informais da língua para situações de expressão oral.

Construir um texto que contenha, mesmo que em frequência mínima, gírias indica que o examinando não domina os padrões cultos da língua, não dispõe de um bom repertório linguístico e não consegue compreender as propostas de redação. Estas costumam enfatizar em seus enunciados a exigência da modalidade culta na produção do texto, independente do gênero requerido.

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